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Para a sucessão em empresas familiares dar certo, é preciso preparar quem assumirá responsabilidades, estabelecer como as decisões serão tomadas e organizar a transferência de conhecimento e autoridade.
As experiências de Takenaka Corporation, Gerdau, Magazine Luiza, Walmart e Fini ajudam a compreender diferentes caminhos de continuidade. Cada empresa, porém, tem sua própria história, estrutura societária e dinâmica familiar. Seus cases oferecem referências para reflexão, sem constituir uma fórmula pronta ou uma garantia de sucesso.
Para gestores que não pertencem à família, apoiar essa transição exige atenção a duas dimensões. Uma envolve a operação, que precisa continuar entregando resultados. A outra envolve relações, expectativas e espaços de poder que podem mudar quando uma geração sucede outra.
Nesse cenário, a contribuição do executivo pode incluir a preparação de lideranças, a organização de informações e a construção de processos que reduzam a dependência de pessoas específicas. Esses temas fazem parte da gestão de empresas familiares e ajudam a situar a sucessão entre as responsabilidades de quem apoia a continuidade do negócio.
Assuma o comando com visão estratégica e foco no legado
O Global 500 Family Business Index 2025, desenvolvido pela EY e pela Universidade de St. Gallen, reúne as 500 maiores empresas familiares do mundo por receita. Juntas, elas registraram US$ 8,8 trilhões em receitas e empregavam 25,1 milhões de pessoas. Entre as organizações do índice, 85% tinham mais de 50 anos de atividade e 34% ultrapassavam um século.
Esses números dimensionam a relevância econômica e a longevidade de parte das empresas familiares. O levantamento também informa que, em mais de 40% das companhias, um integrante da família ocupava o cargo de CEO. A presença familiar, portanto, pode coexistir com diferentes configurações de liderança executiva.
É necessário interpretar o recorte corretamente. O índice classifica grandes empresas por receita e estabelece critérios de controle familiar. Ele não mede a probabilidade de uma sucessão funcionar nem comprova que determinada prática produziu a longevidade observada.
Para quem apoia uma transição, o levantamento oferece contexto. Já os cases permitem observar decisões concretas e levantar possibilidades para discussão, sem transformar a trajetória de grandes grupos em um modelo obrigatório para empresas de outros portes.
A história da Takenaka começou em 1610, em Nagoya, no Japão, com um negócio dedicado à construção de templos e santuários. A trajetória oficial registra a expansão das atividades, a criação de laboratórios de pesquisa e a adoção de sistemas de gestão da qualidade ao longo dos séculos seguintes.
A cronologia também mostra mudanças na distribuição de responsabilidades. Em 2013, Toichi Takenaka assumiu a presidência do conselho, enquanto Masahiro Miyashita passou à presidência da companhia. Em 2019, Miyashita tornou-se presidente do conselho e Masato Sasaki assumiu a presidência executiva.
Esses marcos permitem uma leitura relevante para a sucessão em empresas familiares. A continuidade de uma organização com origem familiar pode envolver mudanças na liderança e nas estruturas de gestão, acompanhadas pela preservação de conhecimentos e referências construídos ao longo do tempo.
Para um gestor externo, a aplicação possível começa pela identificação do conhecimento que ainda depende de pessoas. Relações com clientes, critérios técnicos e decisões recorrentes precisam ser compreendidos antes que seus responsáveis deixem determinadas funções.
Documentar esse conhecimento ajuda, mas a transferência também exige convivência e experiência. O sucessor precisa participar de decisões, conhecer consequências e receber feedback. Cabe ao gestor apoiar esse aprendizado e distinguir os compromissos que sustentam a identidade da empresa das práticas que podem ser atualizadas.
A Gerdau nasceu em 1901, a partir de uma fábrica de pregos em Porto Alegre. O material fornecido para este artigo descreve a passagem por diferentes gerações e a expansão de uma operação industrial brasileira para um grupo internacional.
Um marco particularmente relevante para o tema ocorreu em 2018, quando Gustavo Werneck se tornou o primeiro CEO fora da família. Integrantes da família continuaram envolvidos na governança, enquanto a liderança executiva passou a um profissional não familiar.
A experiência permite discutir uma distinção central. A sucessão pode envolver o comando da operação, a participação nos órgãos de governança ou a propriedade. Essas mudanças têm implicações diferentes e precisam ser tratadas conforme seu alcance.
Para o gestor que apoia a transição, convém esclarecer qual responsabilidade está sendo transferida. Assumir uma diretoria não equivale a representar os acionistas. Participar do conselho também não significa decidir sobre cada questão operacional.
Uma contribuição prática é organizar os limites de decisão. O executivo pode ajudar a registrar quem aprova investimentos, quem acompanha resultados e quais assuntos precisam chegar ao conselho ou aos sócios. Para aprofundar essa discussão, vale conhecer o levantamento da KPMG sobre a profissionalização das empresas familiares.
Essa organização permite discutir situações concretas antes da troca de comando. Também ajuda a dar condições de atuação à nova liderança, que precisa conhecer tanto sua autonomia quanto os compromissos pelos quais será avaliada.
O Magazine Luiza oferece um caso diretamente relacionado à atuação de profissionais externos à família. Segundo reportagem da Exame, a transição para Frederico Trajano foi preparada durante oito anos e incluiu a contratação de Marcelo Silva para a presidência da companhia, em 2009. Frederico assumiu o cargo em janeiro de 2016.
Silva recebeu a missão de apoiar a passagem de uma organização centralizada em Luiza Helena Trajano para uma estrutura menos dependente de uma única liderança. Nesse período, criou processos, reorganizou a diretoria e participou da formação do sucessor. Frederico também construiu experiência na empresa, incluindo a criação do departamento de vendas pela internet em 2000.
O aprendizado possível está na combinação entre preparação organizacional e desenvolvimento individual. A empresa precisa oferecer condições para a mudança, enquanto o sucessor constrói capacidade e confiança para assumir responsabilidades.
Um gestor externo pode contribuir nas duas frentes. De um lado, organiza processos e distribui decisões. De outro, acompanha o desenvolvimento do sucessor em situações reais, com objetivos e critérios de avaliação conhecidos.
Isso exige cuidado para que o acompanhamento produza aprendizado. Participar de reuniões sem responsabilidade efetiva oferece uma experiência diferente de liderar uma iniciativa, responder por resultados e explicar escolhas.
Também é importante definir como o executivo participará da nova configuração. A preparação pode incluir sua permanência em outra função, a continuidade no mesmo cargo ou uma saída planejada. Discutir essa perspectiva ajuda a alinhar expectativas ao longo da transição.
A história oficial do Walmart registra a nomeação de David Glass como CEO em 1988, quatro anos antes da morte de Sam Walton. Em 1992, Rob Walton assumiu a presidência do conselho. Posteriormente, a companhia passou por outras sucessões executivas, como a chegada de Lee Scott ao cargo de CEO em 2000.
A sequência mostra que a transferência da liderança executiva começou enquanto o fundador ainda estava presente. Também evidencia a existência de funções distintas no comando da operação e na presidência do conselho.
Para gestores externos, esse caso permite refletir sobre o momento em que a preparação se converte em autoridade efetiva. Uma transição pode ser anunciada, mas permanecer incompleta se todas as decisões continuarem voltando ao líder anterior. O papel do CEO que deixa o comando na sucessão merece atenção ao definir como a nova liderança exercerá suas responsabilidades.
Ao apoiar a sucessão, o executivo pode ajudar a identificar decisões que serão transferidas e estabelecer como ocorrerá seu acompanhamento. Convém alinhar quem conduzirá reuniões, responderá às equipes e representará a empresa em assuntos operacionais.
Esse cuidado também se aplica à comunicação. Funcionários, fornecedores e clientes precisam compreender a nova distribuição de responsabilidades para saber a quem recorrer.
A presença do fundador durante parte da mudança pode oferecer oportunidades de transferência de experiência. Para aproveitá-las, a organização precisa combinar o acompanhamento com espaço para que a nova liderança exerça seu papel e desenvolva uma forma própria de conduzir o negócio.
A Fini foi criada em 1971 por Manuel Sánchez Cano. Sua história institucional descreve a participação da esposa e dos filhos na produção e na venda dos primeiros doces, seguida pela expansão internacional. A abertura da fábrica brasileira, em 2001, é um dos marcos dessa trajetória.
Em reportagem publicada em 2024, o El País apresentou Antonio Andrés Sánchez, filho do fundador, como presidente da companhia. O capital era compartilhado com os irmãos Manuel, Josefa e Encarnación. A publicação também relatou a decisão de desenvolver um plano de crescimento sem a entrada de um grupo investidor, após avaliar essa possibilidade.
As fontes documentam a continuidade familiar e decisões de expansão, mas oferecem menos detalhes sobre o planejamento da sucessão. Por isso, o caso inspira uma discussão sobre o encontro entre a geração que lidera o negócio e as escolhas necessárias para sua próxima etapa.
Para o executivo não familiar, uma contribuição possível é apresentar alternativas com suas consequências. Crescer com recursos próprios, recorrer a financiamento ou admitir novos sócios envolve escolhas que precisam ser discutidas pelos responsáveis. A pesquisa sobre crescimento e desafios das empresas familiares oferece uma leitura complementar para contextualizar essa discussão.
Na transição, o gestor pode organizar informações e explicitar as premissas de cada cenário. Essa atuação ajuda a conectar expectativas familiares à capacidade financeira e operacional da empresa, oferecendo uma base comum para decisões sobre crescimento e continuidade.
Os cinco exemplos apresentam configurações diferentes. Há preparação de um herdeiro com apoio de um executivo, passagem do comando a profissionais externos e continuidade familiar acompanhada pela expansão. O valor da comparação está em reconhecer alternativas e compreender quais questões elas levantam.
Para gestores que apoiam a sucessão em empresas familiares, uma pauta de trabalho inspirada nesses casos pode reunir quatro frentes.
Essas frentes são uma síntese editorial dos aprendizados discutidos, que precisa ser adaptada a cada organização. Seu desenvolvimento depende do mandato dado ao gestor e da participação dos responsáveis pela empresa.
O executivo também precisa reconhecer os limites de sua atuação. Pode organizar informações, propor caminhos e apoiar conversas. As decisões que pertencem à família, aos sócios ou ao conselho devem permanecer nos fóruns correspondentes.
Apoiar uma sucessão exige competência para lidar com a gestão e sensibilidade para compreender relações construídas ao longo de gerações. Para o profissional externo à família, isso envolve conquistar confiança, apresentar critérios e ajudar a organizar decisões sem assumir responsabilidades que pertencem a outros participantes.
Os cases oferecem pontos de partida para essa atuação. A próxima etapa é examinar a realidade da empresa e identificar quais conhecimentos, processos e competências precisam ser desenvolvidos.
A pós em Gestão de Médias Empresas Familiares da FDC Pós Online contempla executivos não familiares e conecta gestão, governança, sucessão, liderança, patrimônio e dinâmica familiar. A proposta inclui a aplicação de conhecimentos aos desafios de profissionalização e continuidade do negócio.
Gestão de equipes remotas é a coordenação de profissionais que trabalham em locais diferentes. Envolve definir objetivos, distribuir responsabilidades, organizar a comunicação e acompanhar resultados. Para funcionar, exige expectativas claras, confiança e autonomia para que cada pessoa saiba o que entregar e como contribuir para os objetivos do time.
Conforme seu mandato, pode apoiar o desenvolvimento de sucessores, organizar processos, apresentar informações para decisões e acompanhar a transição. Também precisa respeitar as atribuições da família, dos sócios e dos órgãos de governança.
A distinção está principalmente no mandato e no objetivo do trabalho. A auditoria interna avalia e aconselha a organização sobre seus processos de governança, riscos e controles. A auditoria externa atua de forma independente para cumprir um objetivo específico, como emitir uma opinião sobre demonstrações financeiras. Um auditor interno não precisa ser empregado da organização.
Comunicação assíncrona é a troca de informações que permite às pessoas responder em momentos diferentes, sem exigir participação simultânea. E-mails, comentários em documentos e atualizações em plataformas de gestão são exemplos. Esse formato facilita a colaboração entre profissionais com rotinas ou fusos horários distintos, desde que as mensagens tragam contexto e orientações claras.
O caso do Magalu mostra a atuação de Marcelo Silva na criação de processos e na reorganização da diretoria durante a preparação de Frederico Trajano. A nova liderança precisa encontrar condições para exercer suas responsabilidades.
Por Olivia Baldissera
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