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A inteligência artificial nas empresas deixou de ser uma escolha de TI e virou uma decisão de portfólio estratégico, sob pressão de uma disputa de preços que reduz o custo de operação em até cem vezes de um fornecedor para outro.
Segundo dados da Artificial Analysis citados pela Bloomberg , o modelo chinês DeepSeek V4 Flash executa uma tarefa complexa por US$ 0,03. O Claude Fable 5, da Anthropic, cobra US$ 3,15 pela mesma tarefa. A diferença de cem vezes deu nome à reportagem: uma "zona de risco" para qualquer fabricante de modelos sem tecnologia de ponta ou preço competitivo.
Em menos de dois meses, cinco empresas chinesas lançaram modelos que encostaram ou superaram os americanos em testes específicos. A Alibaba apresentou o Qwen3.8-Max, que igualou o Claude Fable 5 em benchmarks de código. /
A Moonshot AI lançou o Kimi K3, com desempenho comparável a modelos americanos de preço muito mais alto. A ByteDance assumiu a liderança em geração de vídeo com o Seedance 2.5. A Z.ai colocou o GLM-5.2 no topo dos rankings globais de modelos abertos, e a DeepSeek, com o V4 Flash, tornou-se a referência em preço baixo.
Grande parte dessas novidades já aparece em ferramentas de IA que empresas brasileiras usam no dia a dia, da geração de código à automação de atendimento. Nenhuma dessas empresas era desconhecida em 2025, uma vez que DeepSeek e Alibaba já apareciam em rodadas de investimento bilionárias no ano anterior.
O que mudou foi o ritmo: cinco lançamentos relevantes em oito semanas é uma cadência que nenhum concorrente americano sustentou até agora, segundo a mesma reportagem.
A Casa Branca avalia sanções contra a Moonshot AI por questões de propriedade intelectual, ao mesmo tempo em que evita medidas que atrasem ainda mais a resposta americana. Trump e Xi Jinping transformaram a liderança em IA em prioridade nacional, e a aliança de inteligência Five Eyes já alertou que modelos de fronteira capazes de causar dano a governos estão a poucos meses de distância, não a anos.
Há também uma disputa sobre a origem do desempenho chinês. A Anthropic identificou 24 mil contas fraudulentas e mais de 16 milhões de interações usadas por empresas como DeepSeek, MiniMax e Moonshot para extrair capacidades de modelos americanos por um processo chamado destilação, segundo reportagem da Axios . Dean Ball, ex-conselheiro de política de IA da Casa Branca e hoje na OpenAI, discorda: para ele, o desempenho do Kimi é robusto demais para ser explicado só por destilação.
A queda de preço parece, à primeira vista, uma boa notícia para quem compra tecnologia. O problema aparece quando se troca o preço por tarefa pela pergunta que interessa ao executivo: qual é o custo real de depender de um fornecedor de IA, e o que acontece se esse fornecedor virar peça de disputa geopolítica.
Um modelo cem vezes mais barato compensa pouco se a empresa que o mantém pode ser sancionada, banida de um mercado ou obrigada a alterar seus termos de uso da noite para o dia. A Casa Branca já sinalizou essa possibilidade em relação à Moonshot. Uma empresa que constrói produtos inteiros sobre um único fornecedor de IA concentra um risco que raramente aparece na planilha de custos.
O preço por tarefa mede uma fração do custo real. Migração entre fornecedores, retreinamento de equipes, integração com sistemas legados e exposição a mudanças regulatórias entram na conta, já que decisões de IA raramente são reversíveis sem custo. O gestor que precisa decidir sobre tecnologia enfrenta hoje uma escolha parecida com a de comprar uma commodity cujo preço internacional muda por decreto.
A resposta não é ignorar os fornecedores mais baratos, nem migrar para eles sem critério. Decidir bem sob essa pressão exige o mesmo repertório de qualquer liderança estratégica em cenários de alta incerteza : cenários, critérios explícitos e responsabilidade definida.
Empresas que decidem qual modelo de IA usar caso a caso, por equipe ou por projeto, multiplicam o risco de fornecedor sem perceber. A alternativa é decidir em nível de portfólio: quais processos toleram um fornecedor mais barato e menos estável, e quais exigem um fornecedor mais caro e mais previsível.
Essa é, em essência, a lógica da Pós em Gestão Estratégica e Inteligência Competitiva da FDC Pós Online, sob coordenação de Ricardo Almeida Abdala, professor convidado do MIT e especialista em administração da qualidade: transformar dados e tendências de mercado em critérios de decisão, em vez de reagir a cada lançamento.
Concentrar operações críticas em um único fornecedor, americano ou chinês, expõe a empresa a decisões que ela não controla, como sanções, mudanças de licenciamento ou banimentos regionais. Diversificar fornecedores custa mais no curto prazo e reduz o risco de parar uma operação inteira por uma decisão tomada em Washington ou em Pequim.
A escolha de fornecedor também é uma escolha ética. Modelos mais baratos costumam ter políticas de dados, moderação e explicabilidade diferentes das de fornecedores americanos, o que aproxima essa decisão dos dilemas éticos que a adoção de inteligência artificial já impõe às empresas .
Times de tecnologia acompanham lançamentos de modelos toda semana. Poucos comitês executivos têm um processo formal para decidir o que fazer com essa informação. A Pós em IA Aplicada à Gestão Empresarial da FDC Pós Online, com Tiago Henrique Valadares Mendes de Moura, CTO da Hop AI e IBM Lifetime Champion, foi desenhada para preencher essa lacuna: preparar diretores e gestores, sem exigência de formação técnica, para decidir sobre investimento e governança de IA com a mesma disciplina aplicada a qualquer outra decisão de portfólio tecnológico.
A Fundação Dom Cabral é a única escola de negócios brasileira entre as dez melhores do mundo, segundo o Ranking de Educação Executiva 2024 do Financial Times. Programas como o de Gestão de Tecnologia e Transformação Organizacional , com Mark Esposito, um dos principais líderes globais da 4ª Revolução Industrial entre os professores, tratam justamente da lacuna entre a velocidade da inovação técnica e a velocidade de decisão das organizações.
É a disputa entre fabricantes de modelos de IA que reduz drasticamente o custo de executar tarefas, com fornecedores chineses como DeepSeek e Alibaba cobrando uma fração do preço de fornecedores americanos como OpenAI e Anthropic pela mesma tarefa. A diferença chega a cem vezes entre o DeepSeek V4 Flash e o Claude Fable 5, segundo dados da Artificial Analysis citados pela Bloomberg.
Empresas concentradas em um único fornecedor de IA ficam expostas a decisões que não controlam, como sanções, mudanças de licenciamento e banimentos regionais. O risco cresce quando o fornecedor mais barato também é o mais recente no mercado e ainda não testou sua estabilidade em cenários de disputa geopolítica.
É a dependência excessiva de um único fornecedor para uma função crítica, o que reduz o poder de negociação da empresa e aumenta o custo de trocar de fornecedor no futuro. Na inteligência artificial, esse risco cresce porque trocar de modelo exige retreinar equipes e revalidar processos inteiros.
Sim, na medida em que empresas brasileiras que adotam modelos chineses ou americanos ficam sujeitas a decisões regulatórias tomadas em Washington ou em Pequim, sem poder de influência sobre elas. A Casa Branca já avalia sanções contra a Moonshot AI, o que ilustra como decisões de política externa podem afetar diretamente a operação de quem depende desses fornecedores.
Por Mauricio Schwingel
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